Como psicólogo e neuropsicólogo, frequentemente encontro pessoas que me perguntam: “TDAH, autismo, esquizofrenia e Alzheimer… o que esses quadros tão distintos podem ter em comum?” À primeira vista, trata‑se de condições com características muito diferentes: o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a atenção e o comportamento; o autismo envolve diferenças na comunicação e na interação social; a esquizofrenia está associada a alterações de percepção e pensamento; e o Alzheimer é uma demência progressiva que compromete a memória. No entanto, ao analisarmos a neurociência por trás desses diagnósticos, percebemos que há um elo inesperado entre eles: a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network, ou DMN).
A Rede de Modo Padrão (DMN)
Em nosso cérebro existe uma rede de regiões interconectadas que se ativa quando estamos acordados mas não focados no mundo externo — por exemplo, durante um devaneio, na lembrança de eventos passados ou no planejamento do futuro. Essa rede envolve o córtex pré‑frontal medial, o córtex cingulado posterior, o precuneus e o giro angular. Ela cria uma narrativa interna e está associada a processos como introspecção, memória autobiográfica e imaginação. Pesquisas mostram que essa rede se desativa quando precisamos de foco e atenção externa e que ela interage com outros sistemas, como a Rede Executiva Central, para equilibrar nossas demandas cognitivas. Importante ressaltar: evidências apontam para disfunções na DMN em pessoas com Alzheimer e autismo.
TDAH: não falta atenção; falta direcionamento
No Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), muitas vezes se pensa que a pessoa “não presta atenção”. Na realidade, nós — enquanto pessoas com TDAH ou profissionais que atendem essa população — sabemos que o problema não é falta de atenção, mas dificuldade em direcioná‑la. A rede de modo padrão pode estar mais ativa do que deveria, o que faz com que a mente fique vagando mesmo quando se tenta focar numa tarefa. Como explica um artigo da L.A. Concierge Psychologist, indivíduos com TDAH “não têm falta de atenção; eles lutam para direcionar sua atenção à vontade, pois a DMN continua operando quando deveria ceder lugar à rede de tarefas”. Pesquisadores têm observado que o cérebro dessas pessoas mantém simultaneamente a DMN e a Rede Positiva de Tarefas ativadas, dificultando a concentração. Essa peculiaridade também explica a criatividade e a capacidade de pensamento divergente frequentemente presentes no TDAH — a mente está sempre explorando várias ideias ao mesmo tempo.
Autismo: DMN ampliada e dificuldades de integração
Em indivíduos no espectro autista, estudos sugerem que a DMN apresenta um desenvolvimento atípico. Pesquisas com crianças autistas mostraram um volume maior de conexões na rede de modo padrão e uma rede de saliência (responsável por direcionar a atenção para estímulos importantes) reduzida, o que pode explicar dificuldades de integração sensorial e funcionamento executivo. Alterações de conectividade na DMN podem contribuir para desafios na autorreferência, na compreensão de estados mentais de outras pessoas e na flexibilidade cognitiva. Essa compreensão reforça a importância de intervenções precoces que ajudem a equilibrar essas redes e promover habilidades de comunicação e regulação emocional.
Esquizofrenia: alterações que afetam cognição e sociabilidade
Na esquizofrenia, a literatura aponta que a atividade e a conectividade da DMN se encontram alteradas, influenciando processos cognitivos e sociais. O blog científico Tempo Próprio resume que estudos sugerem que a DMN pode estar modificada em indivíduos com esquizofrenia, contribuindo para déficits cognitivos e de interação social. Essas alterações podem manifestar‑se como dificuldades em distinguir pensamentos internos de estímulos externos, afetando a percepção da realidade. Compreender essas conexões ajuda a explicar por que intervenções psicossociais que fortalecem habilidades de vida diária e relacionamento são tão importantes no tratamento da esquizofrenia.
Alzheimer: um marcador precoce na demência
No Alzheimer, a DMN é uma das primeiras regiões a mostrar sinais de declínio. Pesquisadores observaram que a conectividade funcional dentro da rede de modo padrão diminui conforme o estado clínico piora, e que essas regiões abrigam acúmulos de proteínas. Curiosamente, essa redução da conectividade pode ser detectada em pessoas assintomáticas geneticamente predispostas ao Alzheimer, o que indica que alterações na DMN podem servir como biomarcadores precoces da doença. Ao monitorar essas mudanças, a ciência busca identificar a demência mais cedo e desenvolver estratégias de prevenção e tratamento.
Além da neurociência: o que mais une esses grupos?
Embora a DMN nos ofereça uma pista neurobiológica, existe outro ponto em comum entre pessoas com TDAH, autismo, esquizofrenia e Alzheimer: todas enfrentam desafios diários e, muitas vezes, estigmas sociais. A falta de compreensão e de apoio pode agravar o sofrimento causado por sintomas cognitivos, comportamentais ou de memória. Quando olhamos para esses grupos como meras “categorias clínicas”, corremos o risco de desumanizar as experiências de cada indivíduo. É fundamental lembrarmos que por trás de cada diagnóstico há uma história de vida, um contexto familiar, cultural e emocional.
Conclusão
Ao responder à pergunta inicial — o que esses grupos têm em comum? — percebo que a resposta vai muito além de um rótulo diagnóstico. Neurocientificamente, TDAH, autismo, esquizofrenia e Alzheimer compartilham disfunções na Rede de Modo Padrão, evidenciando que nossos cérebros operam em redes interligadas e que as fronteiras entre “normal” e “patológico” são mais fluidas do que imaginamos. Do ponto de vista humano, todos os indivíduos nesses grupos enfrentam desafios que exigem compreensão, acolhimento e intervenções personalizadas.
Como profissional de saúde mental e fundador do Espaço Ligno, acredito que a informação é uma ferramenta poderosa contra o preconceito. Quando compreendemos as bases neurobiológicas e emocionais das condições, diminuímos o estigma e abrimos caminhos para mais empatia e cuidado. Convido você a refletir sobre suas próprias redes internas e a buscar conhecimento — afinal, autoconhecimento e apoio mútuo são essenciais para nossa saúde mental e para a construção de uma sociedade mais compassiva.





