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17/10/2025 · 9 min de leitura

Saúde mental dos jovens após a pandemia: impactos e caminhos de cuidado

Artigo de Ciro Guedes · Espaço Ligno, com leitura clínica e educativa sobre psicologia, neuropsicologia e saúde mental

Saúde mental dos jovens após a pandemia: impactos e caminhos de cuidado

A fase mais aguda da pandemia terminou, mas a experiência não desapareceu ao mesmo tempo para todos. Entre adolescentes e jovens, interrupções escolares, isolamento, luto, insegurança financeira, conflitos familiares e perda de experiências importantes produziram efeitos diferentes. Alguns apresentaram ansiedade, tristeza ou dificuldades de aprendizagem persistentes; outros recuperaram a rotina; e houve quem identificasse mais proximidade familiar, novas formas de estudar ou maior consciência sobre saúde mental.

Falar do período com responsabilidade exige evitar duas generalizações: dizer que “uma geração inteira ficou traumatizada” ou agir como se o retorno às atividades tivesse resolvido tudo. O cuidado começa ao compreender o que mudou para aquela pessoa, quais recursos ela possui hoje e o que ainda interfere em sua vida.

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Por que esse período teve tanto peso na juventude?

Adolescência e início da vida adulta são etapas de construção de identidade, ampliação da autonomia, formação de vínculos e aprendizagem de habilidades sociais. Escola, universidade, esporte, cultura, festas e convivência não eram apenas compromissos cancelados: eram contextos onde o jovem testava papéis, experimentava pertencimento e desenvolvia confiança.

Durante a pandemia, muitas dessas experiências passaram para uma tela ou deixaram de existir. Ao mesmo tempo, famílias precisaram lidar com doença, morte, desemprego, sobrecarga doméstica e medo. A desigualdade determinou quem tinha internet, espaço para estudar, alimentação, apoio de adultos e acesso a serviços. Por isso, a expressão “estudamos todos de casa” esconde realidades profundamente diferentes.

O que as pesquisas encontraram?

Uma meta-análise de estudos longitudinais encontrou aumento de sintomas depressivos em crianças e adolescentes durante a pandemia, enquanto os resultados sobre ansiedade foram mais variáveis. Outra revisão sistemática longitudinal identificou trajetórias heterogêneas: os efeitos mudaram conforme idade, gênero, condições anteriores, conflito familiar, solidão, suporte social e exposição ao estresse.

O relatório Life in Lockdown, do UNICEF, reuniu pesquisas com crianças e adolescentes de vários países. Os resultados não apoiam uma narrativa única: uma parcela relatou impacto negativo, outra não percebeu mudança relevante e outra descreveu efeitos positivos. A Organização Mundial da Saúde também destacou que jovens em situações de vulnerabilidade foram atingidos de forma desproporcional.

Esses estudos mostram tendências populacionais, não o destino de um indivíduo. Uma pessoa pode ter atravessado o período sem um transtorno e ainda assim carregar lacunas acadêmicas ou sociais; outra pode ter desenvolvido sofrimento importante mesmo em condições materiais relativamente estáveis.

Três áreas em que os efeitos podem permanecer

1. Rotina, estudo e relação com o tempo

Para parte dos jovens, o ensino remoto reduziu estrutura externa, contato com professores e diferenciação entre estudo, lazer e descanso. Horários de sono mudaram, telas ocuparam mais funções e algumas habilidades deixaram de ser praticadas. No retorno, esperar que o estudante simplesmente “voltasse ao normal” ignorou o tempo necessário para reconstruir hábitos e recuperar conteúdos.

Hoje, dificuldades de concentração podem refletir múltiplos fatores: sono irregular, lacunas pedagógicas, ansiedade, depressão, excesso de notificações, conflitos ou uma condição do neurodesenvolvimento. Não é responsável atribuir tudo à pandemia nem concluir um diagnóstico a partir do rendimento escolar. O primeiro passo é descrever quando a dificuldade acontece, desde quando existe e qual prejuízo produz.

2. Vínculos, autonomia e experiências sociais

Conversas informais, conflitos entre colegas, primeiros encontros, apresentações e circulação pela cidade ensinam habilidades que não se desenvolvem apenas por explicação. Quem passou um período longo com pouca convivência pode sentir insegurança ao retomar essas situações. Evitar todas elas traz alívio imediato, mas pode manter a sensação de incapacidade.

A retomada precisa ser gradual e respeitosa: encontrar uma pessoa antes de participar de um grupo grande, ensaiar uma apresentação, combinar um horário de saída ou pedir apoio de um adulto de confiança. O objetivo não é obrigar sociabilidade, e sim ampliar escolhas sem humilhar ou comparar.

3. Incerteza, luto e sensação de futuro interrompido

Alguns jovens perderam familiares sem rituais de despedida. Outros viram projetos de estudo ou trabalho desaparecerem e assumiram responsabilidades precoces. Mesmo quando a emergência coletiva terminou, o luto, a insegurança e o efeito econômico continuaram.

Também pode existir um luto menos reconhecido por formaturas, viagens, amizades ou etapas que não aconteceram. Validar essa perda não significa equipará-la à morte de alguém. Significa aceitar que acontecimentos esperados organizavam a passagem do tempo e que sua ausência pode ter consequências emocionais.

O que protegeu — e ainda pode proteger?

O UNICEF, no relatório sobre saúde mental de crianças e jovens, destaca que bem-estar depende de relações, segurança, educação, condições socioeconômicas e acesso a cuidado. Proteção não é um traço individual chamado “força”; é uma combinação de recursos pessoais e coletivos.

  • Pelo menos um adulto disponível: alguém que escute sem transformar toda conversa em sermão ou interrogatório.
  • Rotina flexível e previsível: horários de sono, alimentação, estudo e descanso que organizem o dia sem rigidez punitiva.
  • Participação em decisões: jovens aderem melhor a mudanças quando ajudam a defini-las.
  • Convivência significativa: qualidade e segurança dos vínculos importam mais do que quantidade de contatos.
  • Movimento, lazer e criação: esporte, arte, cultura e atividades prazerosas não são prêmio depois da produtividade; fazem parte da saúde.
  • Apoio escolar: recuperação de aprendizagem, acolhimento e adaptações razoáveis quando necessárias.

Fortalecer redes de apoio não é entregar a vida do jovem a outras pessoas. É ampliar os lugares onde ele pode pedir ajuda, pertencer e construir autonomia.

O que famílias podem fazer na prática?

  1. Começar pelo que é observável. Em vez de “você está preguiçoso”, diga: “Percebi que você tem faltado às aulas e dormido durante o dia”.
  2. Perguntar antes de aconselhar. “O que tem sido mais difícil?” costuma abrir mais espaço do que uma lista imediata de soluções.
  3. Evitar usar a própria juventude como régua. Contextos mudaram, e comparação tende a produzir distância.
  4. Combinar um próximo passo possível. Marcar uma conversa com a escola, reorganizar o sono ou procurar atendimento pode ser mais viável do que exigir uma transformação completa.
  5. Rever o ambiente familiar. Crítica constante, violência, imprevisibilidade e sobrecarga dos cuidadores também precisam ser enfrentadas.

O que escolas e universidades podem observar?

Queda repentina de desempenho, faltas frequentes, isolamento, conflitos, sonolência e abandono de atividades merecem conversa, não diagnóstico improvisado. A instituição pode oferecer um ponto de referência, plano de recuperação, flexibilização temporária bem definida e encaminhamento quando necessário.

Políticas de saúde mental não devem depender apenas de palestras pontuais. Pertencimento, prevenção de bullying, formação de professores, protocolos de crise e articulação com saúde e assistência social fazem diferença. O cuidado precisa alcançar também quem não consegue pedir ajuda de forma clara.

Quando buscar ajuda profissional?

É recomendável procurar avaliação quando tristeza, ansiedade, irritabilidade, alterações de sono ou alimentação, faltas, queda de desempenho, uso de substâncias ou isolamento persistem e prejudicam a vida. A psicoterapia pode oferecer um espaço de compreensão e construção de estratégias, com participação da família quando apropriado e respeitando a autonomia do jovem.

Leia também o que a ansiedade pode estar sinalizando. O foco não deve ser apagar toda ansiedade, mas entender quando ela protege, quando limita e quais condições mantêm o sofrimento.

Sinais que exigem atenção imediata

Falas sobre morte ou desejo de desaparecer, automutilação, tentativa de suicídio, intoxicação, violência, confusão intensa ou incapacidade de manter segurança precisam de ação imediata. Não deixe a pessoa sozinha, reduza o acesso a meios de autoagressão e procure atendimento de urgência. No Brasil, o SAMU atende pelo 192; em risco imediato, também é possível acionar o 190. O CVV oferece escuta pelo 188, mas não substitui um serviço de emergência.

Perguntas frequentes

Todo jovem ficou mais ansioso depois da pandemia?

Não. Os estudos mostram respostas diferentes. Alguns tiveram piora, outros estabilidade e alguns perceberam aspectos positivos. É necessário avaliar a experiência individual.

Dificuldade escolar significa transtorno?

Não. Lacunas de aprendizagem, sono, estresse, contexto familiar e qualidade do ensino podem afetar o desempenho. Diagnóstico exige investigação adequada.

Falar sobre suicídio pode colocar a ideia na cabeça?

Não. Perguntar de forma direta e acolhedora sobre pensamentos de morte não cria a ideia e pode abrir caminho para proteção. Se houver risco, busque ajuda imediatamente.

Limitar telas resolve o problema?

O uso de telas deve ser compreendido pelo que substitui, pelo conteúdo, pelo horário e pelo impacto. Uma regra isolada pode ajudar em alguns casos, mas não resolve luto, conflito, depressão ou falta de apoio.

Recuperar não é voltar exatamente ao que era

A meta não precisa ser apagar o período ou recuperar uma versão idealizada da juventude. Pode ser reconhecer perdas, retomar experiências, criar vínculos e construir uma rotina que faça sentido agora. Jovens não precisam ser tratados como frágeis nem abandonados à própria força: precisam de participação, limites claros, oportunidades e apoio proporcional às suas necessidades.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individual, diagnóstico, atendimento médico ou acompanhamento psicológico.

Referências e leituras recomendadas

  1. World Health Organization Regional Office for Europe. The impact of the COVID-19 pandemic on the mental health of young people. 2023.
  2. UNICEF Office of Research – Innocenti. Life in Lockdown: Child and adolescent mental health and well-being in the time of COVID-19. 2022.
  3. UNICEF. The State of the World’s Children 2021: On My Mind. 2021.
  4. Kauhanen L, Wan Mohd Yunus WMA, Lempinen L, et al. A systematic review of the mental health changes of children and young people before and during the COVID-19 pandemic. European Child & Adolescent Psychiatry. 2023.
  5. Wolf K, Schmitz J. Scoping review: longitudinal effects of the COVID-19 pandemic on child and adolescent mental health. European Child & Adolescent Psychiatry. 2024.
Este conteúdo é educativo e não substitui psicoterapia, avaliação neuropsicológica, atendimento médico ou suporte emergencial quando necessário.
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